quarta-feira, 28 de outubro de 2009


"Desutilidade poética"

Li no último fim de semana o fabuloso "Livro sobre Nada", de Manoel de Barros, e foi de lá que tirei a expressão que título a esta coluna. Peço licença ao escritor mato-grossense que tanto admiro. É que não encontrei nada mais apropriado para a tentativa de classificação do tema que trato hoje: flores.

Útil, diz o dicionário, é "aquilo que tem ou pode ter algum uso ou serventia". Pois não há nada mais sem serventia do que uma flor. Ela não enche barriga, não ajuda a economizar energia, não pode aplacar a queda do real frente ao dólar, nada desses temas candentes que movem a nação. Ao contrário. Nos idos dos combativos anos 60, já foi até um execrado signo de alienação, de descompromisso com a realidade – significado que, por exemplo, Geraldo Vandré lhe atribuiu em "Pra não dizer que não falei de flores".

No entanto, não há nada mais definitivo para mudar um ambiente do que uma flor. Não importa a quantidade. Pode ser um exemplar solitário ou um buquê farto, transbordante, tanto faz. Flores têm uma impressionante capacidade de alterar a percepção de todo um espaço. Entre numa casa que tem flores. Elas são imediatamente percebidas. Transmitem um estado de espírito; sinalizam atenção, delicadeza, celebração.

Repare como mais e mais pessoas estão se dando conta disso. Flor virou parte da "cesta básica" de algumas faixas da população. Um presente que se compra para si mesmo e se leva para casa para ajudar a passar a semana com mais beleza e alegria.

Até alguns anos atrás o comércio de flores se restringia às bancas em calçadas, muitas delas próximas a cemitérios. As vendas eram sazonais, e quase se limitavam às datas – finados, dia das mães, Natal e dia dos namorados. Hoje os pontos de venda se multiplicaram, incluindo os supermercados, e simultaneamente se sofisticaram. Incrível o requinte criativo que se vê em algumas floriculturas. Os arranjos estão mais bonitos; há maior variedade de vasos, suportes, insumos, acessórios que colaboram para um melhor desfrute das plantas.

Isso ocorre não só no Brasil. O grupo editorial "View" abriu uma revista só para o tema, a "Bloom-View onFlowers", com sede em Paris, porque, segundo sua editora-chefe, Li Edelkoort, as flores estão se tornando cada vez mais importantes no nosso cotidiano e estão intimamente ligadas a outros interesses que temos na vida, como design, comida, tempo livre, amigos, família e filosofia".

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